Não escrevo para mudar a opinião de quem não concorda comigo. Mas para quem concorda saber que não está sozinho (a). Ninguém solta a mão de ninguém.
É muito interessante e revelador ler nas mídias locais o relato de um acontecimento dia 04/05/2021 narrado por veículos de impressa de grande circulação aqui da região do Vale do Ivinhema, diz que em plena pandemia de Covid-19, jovens fazem festa clandestina sob ponte de Batayporã. Na verdade, o que se lê é muito mais uma acusação do que uma matéria jornalística imparcial. A matéria começa julgando, acusando e punindo os supostos jovens e fazendo alarde em tons apocalípticos necrófagos, de que há uma pandemia muito letal e faz um juízo de valor errôneo ao concluir que havia uma clandestinade, termo, aliás, de uso inapropriado para o evento, talvez correto para o dicionário. Não vejo clandestinidade, mas o antônimo, pois foi à céu aberto e com música alta. A mídia quis dar um tom pejorativo e punitivo de antemão.
Diz que a redação teria recebido vários vídeos mostrando os jovens aglomerados, sem máscaras, fazendo uso de bebidas alcoólicas, aqui o jornal extrapola a notícia, num claro mecanismo de tentativa de manipulação do seu leitor, bem como com a intensão de criar um fato, um certo juízo de valor negativo sobre os jovens. E continua, o jornal, dizendo que eles estavam ouvindo música alta, eis aqui outra reflexão necessária, estava alta para quem? Qual ouvido sensível se perturbou com o volume da música debaixo de uma ponte? E se era ao ar livre não poderia ser clandestina como começou acusando a mídia.
O jornal passa a narrar que foi ao local e constatou a existência de frascos de bebidas alcoólicas, aqui o periódico reitera e comprova, digo, traz provas criminais, que serão usadas contra os jovens, e diz que encontrou ainda embalagens de essência de narguilés, preservativos usados, entre outros vestígios. O jornal digital estampa as fotos de tais vestígios do “crime”.
Aqui a imprensa faz o papel de investigador policial, enfim, o relato jornalístico-investigativo, cumpre assim o papel de fornecer provas policiais contra os adolescentes e que o site teria apurado que algumas pessoas teriam sido identificadas. O que provavelmente levará alguns dos jovens a uma situação de risco, vexame, vergonha, medo, entre outros problemas emocionais.
Termina citando a legislação municipal sobre aglomeração e o Código Penal em seu artigo 268, sobre a propagação de doença contagiosa. Mas é curioso saber que um certo prefeito outro dia atrás foi se reunir com o presidente da República que vive fazendo aglomerações, é contra vacina, é negacionista da doença, diz que é uma gripezinha e recomenda remédios sem comprovação científica para o tratamento do vírus e a imprensa não o julgou com tal virulência, se é que o fez. Recentemente, esse presidente fez “motociata” e não me consta que os jornais tenham se preocupado tanto com essa aglomeração no meio de uma pandemia altamente mortal, que o jornal diz que é ao se referir à suposta festa dos jovens.
O site-jornal termina citando o prefeito Germino Roz (PSDB) dizendo que este lamentava o fato e que iria tomar as devidas providências. Entre aspas o prefeito em tom moralista e culpando os seus jovens munícipes (muito provavelmente seus eleitores), sua juventude, à qual ele também faz parte, e até “ontem” era um jovem nas ruas de Batayporã e, quiçá, se divertindo debaixo da ponte do nosso memorável rio Samambaia. Era um jovem cabeludo interpretando Cristo na Semana Santa, egresso do curso de História aqui da UFMS de Nova Andradina. Não lhe cai bem dar lição de moral a um grupo de jovens que estava se divertindo, não lhe cai bem expor a sua juventude. E se por acaso o vídeo viralizar? Esses meninos terão que pagar que preço por uma suposta festa? Ameaçar que todos serão identificados e indiciados por crime é muito grave, coisa de ditador. Eu tenho certeza absoluta que o nosso Germino não é, aqui falo como seu ex-professor. Não estamos falando de criminosos, mas de pessoas humanas, sobretudo de um pequeno grupo de jovens que estavam sendo jovens, ora errando, às vezes. Germino, você não é esse carrasco que a imprensa está pintando, você é muito melhor, não nos decepcione. Seja pedagógico.
Não estou aqui fazendo juízo de valor do fenômeno da tal aglomeração, na minha visão sociológica do tema os trabalhadores e, principalmente, as trabalhadoras nunca deixaram de se aglomerar nos ônibus, trens e metrôs lotados, nas fábricas. O comércio está sempre tão aglomerado, os bares, as praias, as “motociatas” presidencial e suas festas. Muitas faculdades particulares e escolas estão em funcionamento em razão do lucro, como escrevi denunciando aqui nesse mesmo jornal “O desabafo de um estudante de uma faculdade particular”, (31/05/2021).
Concluo, é preciso pensar uma cidade viável à juventude, que ofereça espaços e lugares de sociabilidade humana, que educa os jovens para (com)viver em comunidade, para o respeito recíproco e fraterno.
Não é punindo criminalmente a juventude que se educar, não é fazendo matérias jornalísticas de caça às bruxas, muito menos inquisidora que vamos transformar nossas cidades, até porque, caçar, acusar, julgar e punir alguns jovens é fácil, difícil mesmo é fazer com o Presidente, responsável pela falta de vacinas para nós brasileiros. Se acaso ele não tivesse negado esse vírus altamente mortal e comprado as devidas vacinas ainda no ano passado, muito possivelmente, esses jovens estivessem apenas se divertindo um pouco.
*Docente adjunto 3 do curso de História da UFMS, campus de Nova Andradina (orientador).
Este texto, não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova
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